por Steve Outing

Se você visitar qualquer grande livraria (das de tijolos e concreto) e for à seção de Internet levando consigo uma fita métrica, provavelmente encontrará centenas de metros de espaço de prateleira dedicados a títulos sobre a Web.

A maior parte dessas estantes estará lotada de livros sobre software para a Web, como usar a Internet para pesquisas, linguagens de programação, projeto de home pages etc. Mas vejamos, há algum livro sobre conteúdo? Sobre como produzir as palavras e imagens que comporão aquilo que os usuários encontram na Web? Ah, sim, lá estão eles, em uma prateleira bem lá embaixo -e não há muito o que escolher!

Esse é o estado do mercado quanto a livros sobre a Internet. As editoras publicam livros sobre tecnologia para a Web suficientes para encher múltiplas estantes nas livrarias, mas o conteúdo para a Internet continua a ser um nicho de mercado minúsculo. A nova onda de livros sobre conteúdo Estamos começando a testemunhar uma mudança, à medida que mais autores enfrentam o tema de como produzir conteúdo para a Web.

Uma recente adição a essa estante pequena mas crescente é “Writing for the Web” (“Escrevendo para a Web”), do escritor e professor universitário canadense Crawford Killian (Self-Counsel Press, 1999). Lançado há alguma semanas, esse sucinto trabalho (139 páginas incluindo os apêndices) oferece uma boa visão geral sobre como escrever para sites (de todos os tipos) na Web e por que esse tipo de trabalho deve ser diferente do realizado para as velhas mídias como a impressa. Killian é uma boa escolha para oferecer esse tipo de conselho, tendo ensinado redação em diversas formas por mais de 30 anos. Nos últimos anos, ele vem dando um curso de redação para a Web aos seus alunos no Capilano Community College, Colúmbia Britânica, Canadá.

Como Killian lembra no começo do livro, a Internet como mídia editorial é tão nova que a maior parte das pessoas que escrevem para ela criam seus estilos à medida que trabalham. Os primeiros escritores da Web -pelo menos aqueles dentre eles que se tornaram moderadamente bem sucedidos- foram copiados pelos que vieram a seguir. Infelizmente, os pioneiros nem sempre sabiam o que estavam fazendo, e seus defeitos de estilo muitas vezes foram adotados como modelo por outros sites na Web. Além disso (algo que se aplica especialmente ao setor noticioso), muitas das empresas jornalísticas vindas da mídia tradicional simplesmente reaproveitam conteúdo de seus negócios mais antigos (jornais, revistas etc.) na Web sem adaptar apropriadamente o estilo literário desses trabalhos à mídia online.

É bastante comum que um webzine bem produzido dê aos leitores uma experiência de leitura muito melhor do que um jornal online, porque a revista que só sai na Web edita seus artigos tendo em mente as necessidades específicas de seus leitores na Internet, enquanto o conteúdo do site de um jornal foi criado primordialmente para leitores de mídia impressa. Em outras palavras, se você está procurando por orientação sobre como escrever para a Web de maneira apropriada ao meio, não se limite a estudar o que é publicado na própria Web como referência.

Como escrever direito

O livro de Killian cobre um terreno bastante amplo em um número de páginas modesto, começando com capítulos que explicam os conceitos que embasam o hipertexto e como estruturar um site na Web. A menos que você seja um novato na editoração via Web, pode pular direto para o capítulo 3, “Organizando o Conteúdo de um Site na Web”, e começar a ler -mesmo sem os dois primeiros capítulos, o livro vale o preço. O capítulo 4 tem por título “Escrevendo Bem para a Web”, e esse é o ponto central do texto, e a razão para que eu tenha desejado ler esse livro. Killian oferece algumas ótimas dicas para envolver -em lugar de irritar- os leitores da Web com seu estilo literário, entre as quais:

Seja sucinto e preciso:

Como bem documentam os estudos de facilidade de uso da Web, os leitores da Internet tendem a olhar os sites meio por cima, em lugar de lê-los com atenção. (Isso se deve em parte à baixa resolução das telas de computadores atuais; é difícil para a vista ler durante muito tempo em um monitor de computador, e a velocidade de leitura em uma tela é em média 25% menor do que em uma página impressa.) Isso significa que tudo que você escreve precisa ser o mais resumido possível. A idéia é transmitir a mensagem da maneira mais rápida, porque não há muito tempo. Em seu livro, Killian oferece diversos exemplos de textos escritos para a Web que ele editou radicalmente, em certos casos reduzindo-os à metade da dimensão inicial.

Mantenha os parágrafos e sentenças curtos.

Não leve esse conselho ao extremo e torne seu texto muito simplório, mas Killian sugere que os parágrafos na Web não deveriam ter mais que, digamos, 75 palavras de comprimento, e que as frases neles sejam curtas. Parágrafos maiores tornam difícil a leitura na tela, e é mais provável que você perca leitores.

WEB é atemporal
“Ontem”, “hoje”, “amanhã”, não fazem o menor sentido.
Informe sempre a data exata (ao menos na página).

WEB é universal
“Na cidade”, “na região”, “este país” são vagos.
Um leitor do outro lado do mundo não saberá a que cidade, região ou país você se refere.
Precise ao máximo essas localizações.
“ Próxima edição” ou “edição passada” não combinam com web. Edições acontecem a todo o momento.

 Títulos… Curtos e que tenham a ver

Parágrafos Curtos
Os parágrafos devem ter, no máximo, 5-7 linhas.
Textos alinhados à esquerda ajudam a leitura

Reduza os floreios:

Em um exemplo de como produzir textos enxutos e apropriados à Web, Killian sugere que você comece escrevendo trechos de entre 150 e 200 palavras. Depois, vasculhe-os agressivamente e tente reduzi-los a cerca de 55 ou 60 palavras, e a partir daí acrescente os complementos que julgar necessários. Do trecho restante do texto, “cada frase, cada palavra, teve de lutar por sobreviver”, escreve Killian.

“Você colocou o máximo possível de significado no mínimo possível de texto, de modo que seus leitores receberão a mensagem no menor tempo possível”.Divida parágrafos longos em listas de itens destacados. Killian oferece diversos exemplos de como um longo parágrafo de texto contendo uma lista de itens pode funcionar bem em mídia impressa mas fica melhor dividido em seções destacadas para a Web. É mais fácil para os usuários da Web entender o que você quer dizer se a informação estiver dividida; em um parágrafo longo, é provável que sequer seja lida.

Use verbos fortes em lugar de fracos:

Escreva “decidir”, não “tomar uma decisão”. Ou “usar” em lugar de “fazer uso de”. Essa técnica não só apresenta sua mensagem aos leitores da Web de forma mais vigorosa como também ocupa menos espaço.

Use a voz ativa:

Usar a voz passiva (“um sério erro foi cometido” é um risco ocupacional em campos como a escrita acadêmica, ciência e tecnologia, lembra Killian. Mas se você tem uma audiência geral, ela não cabe em um site da Web. Use a voz ativa (“você cometeu um erro sério”) quando escrever para a Web, para que sua redação não o faça soar como um pedante. Usar a voz ativa também tende a usar menos palavras para dizer a mesma coisa, e para os leitores da Web que tendem a dar uma olhada no texto em vez de ler com atenção, a brevidade é crucial.

Atenção no uso de metáforas elaboradas.

Se você estiver descrevendo uma metáfora para governo como “o navio do Estado” em um parágrafo, e mais tarde no mesmo texto quiser ampliar a metáfora e chamar o Legislativo de “sala das máquinas”, pode ser que a técnica funcione na mídia impressa, mas online não é assim. Os leitores podem pular de um ponto a outro de seu conteúdo, e “entrar” em um artigo pela metade.  Se lerem apenas a parte final dessa metáfora, ficarão confusos.

Escreva e edite tendo em mente leitores internacionais:

Quando escrever para um site na Web, lembre-se de que pode ter uma audiência internacional. Os leitores dos Estados Unidos podem entender o que “fender bender” quer dizer (um congestionamento monstro), mas pessoas de outros países ficarão perplexas. Pense antes de empregar palavras ou frases características, sugere Killian.

Imprima o texto para corrigi-lo:

Uma vez mais voltando à realidade irrefutável de que é mais fácil ler em papel do que no computador, Killian implora aos editores da Web que imprimam todos os textos para uma revisão final. Mais erros serão percebidos, dessa maneira. Além disso, leia em voz alta seu texto para a Web -outra técnica para descobrir frases que soam mal e que você poderia perder se tentasse corrigir suas provas diretamente na tela.

Killian também, sabiamente, devota um capítulo às técnicas de uso de redação na Web com fins de persuasão ou vendas. O que os jornalistas e editores mais inteligentes que operam na Web desejariam é usar palavras que provoquem ação da parte do usuário, e não apenas usar palavras que digam alguma coisa a ele numa relação que se esgota imediatamente.

A Web, como mídia, trata de estabelecer relações interativas, e não apenas de transmitir informação. O livro é bastante amplo e cobre todo tipo de redação para a Web. O conselho de Killian é tão pertinente para os jornalistas que operam na Web como para os escritores de ficção ou os publicitários. No futuro, como diz o autor ao final do livro, sem dúvida haverá estantes inteiras nas livrarias devotadas a como escrever bem para a Web.

Já há necessidade de um livro sobre como escrever para Webzines, como escrever publicidade para a Web, como encontrar mercados bem pagos para redação na Web etc. Enquanto esperamos que as editoras preencham essa necessidade, o livro de Killian é uma boa introdução para que os jornalistas se acostumem à idéia de ajustar seus estilos quando trabalharem para a mídia online.

STEVE OUTING é consultor sobre publicações na Internet e colunista, radicado nos EUA, da Editor Publisher Interactive

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