Um rappEmicida e seu Rapp Subversivo no Rock in Rio
er paulistano num festival de rock independente? Um mano de sotaque carregado em meio a guitarras na Lapa? É, mas não se trata de um cara qualquer. Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, de 25 anos, é um dos maiores rappers brasileiros. E não apenas se apresenta no Grito Rock, quinta-feira, no Circo Voador, como está escalado para o Rock In Rio, em setembro, e para o Festival Coachella, um dos maiores eventos da música pop no mundo, em abril, na Califórnia.

Nesta entrevista, o mestre das rimas de improviso, famoso por esculachar rivais nas batalhas entre rappers (Emicida é mistura de “MC” com “homicida”), faz pouco caso das críticas que recebe via Twitter, fala sobre a parceria com a banda NX Zero e conta que foi vítima de bullying na escola, por ser negro e, na época, muito pobre.

– A professora ria quando me zoavam. Aquilo me enchia de ódio. Acho que a agressividade do meu jeito de cantar veio do bullying – diz o músico, que transformou em bordão o verso “A rua é nóis”, do hit “Triunfo”. – Ninguém faz rap sem ódio.

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O GLOBO: Você cresceu numa favela da Zona Norte de São Paulo. Como foi o primeiro contato fora da comunidade?

EMICIDA: Eu tinha 6 anos quando meu pai morreu, e minha mãe virou faxineira. Saí da favela pela primeira vez nessa época, quando ela me levava para as casas nos bairros de rico. A primeira vez que vi um lápis de cor foi na casa de um arquiteto. E tive contato com livros também. Apartamento de rico é cheio de livros (risos). E como você via os contrastes entre os bairros nobres e a sua comunidade?

EMICIDA: Eu brincava com as crianças ricas e voltava a para minha realidade. Morava numa casa de um cômodo com mais quatro pessoas. Aquilo me frustrava, mas transformei a frustração em vontade de crescer. Nessa época, o que me deixou mais revoltado foi a escola.Por quê?

EMICIDA: Criança é um problema, cara. Os colegas me sacaneavam porque eu não tinha nem tênis, era sempre o mais pobre da sala. Pegavam no meu pé até porque meu pai tinha morrido. Durante um tempo, estudei num bairro de gente rica, perto da casa de uma patroa da minha mãe. Era o único negro da sala, e até a professora ria quando me zoavam. Aquilo me enchia de ódio, e virei um garoto violento, queria sair no braço com todo mundo. Num outro colégio, a barra era pesada. A polícia entrava na sala com cão farejador para revistar os alunos. Não tinha como estudar. Cheguei a sair da escola por meses e até pedi esmola na rua.Isso tudo influenciou de algum jeito a sua música?

EMICIDA: Acho que a agressividade do meu jeito de cantar veio desse bullying contra mim. Aprendi que, se eu não me impuser, ninguém escuta. Quando você cresce com raiva, vira suicida ou terrorista. Sou um terrorista, mas da música. Ninguém faz rap sem ódio. Quando a música entrou mesmo na sua vida?

EMICIDA: Eu andava com a galera do break e do grafite. Acordava às 7h para grafitar. Tinha 16 anos e era meio “vida loka”. Mas o rap fazia parte desse universo, e comecei a frequentar as batalhas de MCs. Era só brincadeira de sacanear o outro. E eu me dava bem porque sempre tive facilidade para fazer rima. Aí se vingava das vezes em que você foi sacaneado?

EMICIDA: Não sei, mas eu não perdoava ninguém. Nas batalhas, eu consegui me impor. Já fiz um cara chorar e até fui ameaçado de morte depois de esculachar demais um MC. Eu plantava um clima tenso. Perco o amigo mas não perco a rima. Não alivio nem cego. Em cima do palco, é tiroteio. Se você não sacar, o outro saca.Mas agora você ficou famoso. Deu entrevista no “Altas horas”, no “Programa do Jô”, suas músicas tocam no rádio, vai cantar no Rock In Rio…

EMICIDA: Eu estourei, cara… (risos). Mas não largo as origens. Abracei a causa de dizer coisas relevantes. Eu canto sobre os esquecidos. Tem uma pá de gente invisível na rua. Eu vim dessa galera, estou aqui por causa deles. Meu exército é invisível. No meio do rap nacional, dizem que entrar para o mainstream é traição. Você já foi chamado de traidor?

EMICIDA: Já. Principalmente pelo Twitter, porque a internet dá coragem para as pessoas. Mas esse povo aí não tem namorada e critica porque não tem o que fazer. Essa coisa de rapper não aparecer na TV surgiu com os Racionais MCs e funcionou bem para eles. Não preciso imitar.Semana passada, o nome da música “Rua Augusta” foi parar nos trending topics do Twitter, quando o clipe estreou na MTV. Você se liga nessas coisas?

EMICIDA: Internet é ferramenta de trabalho, mas não dou tanta credibilidade para web. O trampo de verdade é na rua. Artista que só tem nome na internet e não representa na rua não vai a lugar nenhum.

As bases do seu som misturam vários ritmos. E você vai tocar no Grito do Rock. Já ouviu críticas de puristas do rap?

EMICIDA: Já fui a muitos festivais de rock pelo país. Coquetel Molotov, Calango, Jambolada… Quero derrubar essas barreiras ignorantes. Minha música tem influências de Lupicinio Rodrigues, jazz, samba, Nação Zumbi, Caetano Veloso… Para mim, tudo isso está conectado. Gravar a música com o NX Zero (“Só rezo”) foi ideia sua?

EMICIDA: Não. Foi um convite do produtor, o Rick Bonadio. Mas eu adoro NX Zero. Foi ótimo trabalhar com eles, e depois até apareceram umas adolescentes me seguindo no Twitter (risos). Já tinha quase gravado com a Cine também. Os caras dessa banda estão sempre nos shows de rap de São Paulo. Você gosta de funk?

EMICIDA: Me amarro em Claudinho & Buchecha, Cidinho & Doca… Mas a vertente que mais faz sucesso, que só fala de sacanagem e crime, presta um desserviço. Ninguém quer ouvir o sistema dizer que funkeiro é bandido, mas aí vem vagabundo e canta que é isso mesmo. Esses caras podem ferrar uma geração inteira, cantando que ganhar salário é vergonha e enaltecendo promiscuidade. Outro dia fui à casa da minha mãe e vi minha prima de 14 anos com um filho. É uma bagunça. Você tem uma filha de dois meses. Com tantos projetos e trabalhos, como você arruma tempo para a família?

EMICIDA: Outro dia tuitei que minha vida profissional anda assim como a minha vida pessoal desaba. Até porque eu me expresso muito melhor cantando do que conversando. Acho que a minha infância fez de mim um cara frio, principalmente num relacionamento. Espero que a minha filha me ajude a mudar isso, a ser um cara mais sensível. Tomara.

Fonte: O Globo

Emicida

 

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