SÃO PAULO (Reuters) – ‘Ninguém fica impunemente no mesmo lugar’, disse o cineasta Vladimir Carvalho, no Festival de Paulínia, em julho passado, de onde seu ‘Rock Brasília – Era de Ouro’ saiu consagrado com o prêmio de melhor documentário. É interessante como a declaração do diretor sugere que as bandas de rock que surgiram no cenário retratado — entre elas, Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude — são frutos do local.

Aos poucos, o documentário de Carvalho, em lançamento nacional em 58 cópias, monta um panorama de uma época e um lugar que, embora com localização específica no tempo e no espaço, perdura no país inteiro até hoje. Afinal, a pergunta ‘Que País é Esse?’, na voz de Renato Russo, continua atual há mais de duas décadas.

O documentário é o primeiro de uma leva de filmes ligados ao músico (que morreu há 15 anos) e sua obra, que devem chegar aos cinemas no próximo ano. Antonio Carlos da Fontoura (‘Gatão da Meia-Idade’) prepara a cinebiografia do começo da carreira do músico em ‘Somos Tão Jovens’ e René Belmonte dirige a adaptação para o cinema da famosa saga musical ‘Faroeste Caboclo’.
Carvalho, que já foi professor na Universidade de Brasília, tem a curiosidade aguçada e o jeito para conversa. Numa entrevista feita com Renato Russo em 1988 — e que até agora estava inédita — o cineasta e o músico falam de vários assuntos. A gravação foi feita na véspera de um show histórico no estádio Mané Garrincha, que acabou num quebra-quebra documentado no filme.
Entrevistas com músicos (Phillipe Seabra, Bi Ribeiro, Dinho Ouro Preto, Dado Villa-Lobos, entre outros), pais e parentes deles (como a mãe e irmã de Renato, Carminha e Carmem Tereza) são reveladoras e até nostálgicas.
Se para uma geração, ‘Rock Brasília – Era de Ouro’ é uma viagem ao passado, a lembrança da juventude, para os mais jovens, é a descoberta de uma época. A entrevista de Renato Russo é uma espécie de fio condutor do documentário, mas é a conversa com Briquet de Lemos, pai de Flávio e Fê Lemos (do Capital Inicial), que joga mais luz sobre a formação das bandas e seus músicos.
Junto com ‘Conterrâneos Velhos de Guerra’ (1991) e ‘Barra 68’ (2000), ‘Rock Brasília – Era de Ouro’ forma uma trilogia sobre a formação história, política e cultural da capital federal.
Conhecido também por filmes como ‘O País de São Saruê’ e mais recentemente ‘O Engenho de Zé Lins’, o cineasta partilha daquele método de Eduardo Coutinho, no qual se ouve com generosidade e curiosidade o que seus entrevistados têm a dizer. O resultado é um amplo painel sobre a cultura nacional que fala do passado num diálogo claro com o presente.

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