Entre 11 e 20 de janeiro de 1985, num terreno alagadiço de 250 mil metros quadrados em Jacarepaguá (o equivalente a 12 Maracanãs) , no Rio de Janeiro, cerca de 1,4 milhão de pessoas viram aquele que seria o maior festival de rock do País até hoje. Era um momento de grande simbolismo na vida do País: no mesmo dia do show da banda carioca Barão Vermelho, havia sido eleito Tancredo Neves, o primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura.

Durante dez dias, 14 artistas internacionais e 15 atrações nacionais se apresentaram num ritual de lama e paz & amor. Mas não foi fácil realizar o negócio: o empresário Roberto Medina conta que, logo após fazer o show de Sinatra, foi a Nova York com o seu projeto de um megafestival de rock na América Latina e conta que cansou de bater na porta de empresários do ramo do show business. “Fiquei 40 dias em Nova York e não consegui nada.” Levou negativas de 200 empresários. Até que solicitou ajuda ao manager de Sinatra, Luis Soto, que pediu que ele marcasse um coquetel em sua suíte de hotel para 30 pessoas. Enviou jornalistas de todos os grandes jornais americanos, que publicaram com destaque a iniciativa do brasileiro. “Aí, meu amigo, no dia seguinte tinha fila na porta do meu apartamento”, lembra. “Fechei o cast em dois dias.”

Naquele ano de 1985, Freddie Mercury, do Queen, ficou tão impressionado com o entusiasmo do público que, durante a canção Love of my life, decidiu reger a plateia em uma cena que se tornou mítica na história do rock’n’roll.

A banda australiana AC/DC foi inflexível em pelo menos uma exigência: só tocaria no Brasil se pudesse trazer um gigantesco sino de 1,5 tonelada, usado na música Hell’s Bells. A produção do Rock in Rio aceitou o desafio e trouxe o sino de navio. Mas aconteceu o que ninguém esperava: o palco não suportava o peso do sino. No fim, o AC/DC subiu no palco com uma réplica de gesso, uma improvisação feita da produção do festival. Na mesma edição, Ozzy Osbourne levou a torcida do Flamengo à loucura ao subir ao palco com uma camisa do Zico.

O Iron Maiden fez seu primeiro show na América Latina no Rock in Rio, em 1985. A banda subiu ao palco às 23h58 (uma referência à canção Two minutes to midnight) e fez um dos shows mais históricos da banda e do festival, com a presença do Eddie, o monstro de estimação do grupo.

Maior circo do rock do mundo, o Rock in Rio completa 30 anos hoje. Há três décadas, ele instaurava em terras tropicais, pela primeira vez, aquela simbologia de zona franca de liberdade, música e amor que tinha sido gestada em Woodstock. Sua canção-tema, criada como um jingle publicitário (“Se a vida começasse agora/ e o mundo fosse nosso outra vez/ e a gente não parasse mais de cantar, de sonhar…”), globalizou-se, virou chiclete nas bocas de brasileiros, portugueses e espanhóis e agora vai também aos Estados Unidos.

Nos primeiros 20 anos, o Rock in Rio se tornaria também o primeiro festival a adotar e expandir a noção de franchising e “shoppingcenterização” dos megaeventos musicais. Em uma trajetória de êxito, o festival protagonizou histórias de ressurreição e nascimento, glorificação ou despedida no seio da mitologia musical. James Taylor renasceu duas vezes no Rock in Rio. Os Paralamas do Sucesso e o Barão Vermelho nasceram no palco do festival, e o Brasil acompanhou seus partos. Shows memoráveis de Queen, AC/DC, Ozzy, Santana, Joe Cocker, Judas Priest, Bruce Springsteen, Neil Young e Metallica erigiram suas fundações.

Reputações foram erguidas (como a do Queens of the Stone Age) e famas foram demolidas (como a de Britney) em seus palcos. O grupo B52’s, que foi atração do primeiro Rock in Rio, em 1985, até hoje guarda boas lembranças de seu batismo nos trópicos. “Foi mágico, aquele foi um dos nossos maiores shows. Lembro de voar de helicóptero em volta do Corcovado, uma maravilha”, lembrou a cantora Kate Pierson.

No próximo mês de maio, em Las Vegas, o Rock in Rio inicia sua viagem norte-americana. “É uma coisa muito bacana, e eu estou vivendo aqui, do ponto de vista emocional, um desafio muito semelhante ao que vivi no primeiro Rock in Rio”, disse Roberto Medina, o criador do festival. Cada espectador guarda sua memória do melhor de alguma das 14 edições do Rock in Rio. Aqui, nossa equipe elege o que foi destaque (positivo e negativo) de sua espetacular história.

Fonte: Estadão

Anúncios